Daniel e João Fernandes: Uma história sobre as viagens das canoas de toldas

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Propriá/SE – Relato de uma viagem em canoa de tolda que mostra o quanto era dura a lida dos canoeiros no decorrer do seu dia de trabalho e contribuição das canoas de tolda no Baixo São Francisco.

Relato:

Era uma manhã de um dia de sábado do mês de agosto na cidade de Própria. Dois canoeiros, que eram irmãos de sangue, preparavam-se para zarpar rumo à cidade de Piranhas/Alagoas em sua canoa de tolda por nome de Argentina.

Já carregada no dia anterior, na sexta-feira, a canoa levava diversas mercadorias para o alto sertão que seriam vendidas na feira de Piranhas e algumas eram encomendadas por pessoas de lugares que situam-se às margens do Rio São Francisco. Na embarcação estavam vários sacos com litros de cachaça termosa, vinho da fábrica de bebidas Sertaneja, redes de pescaria, sacos de farinha, sacas de arroz, esteiras, tecidos, panelas de barro, cestos de cipós, tábuas de madeira jaqueira, sacos de laranja e muitos outros sacos de sal. A carga era grande e demasiada pesada, mais de 15 mil quilos rio a cima.

O mês de agosto é conhecido pelos canoeiros como o mês dos ventos, contudo, porém, de quando em vez pequenos espasmos de chuvas que trazem o famoso vento de aguaceiro, como também assim o chamam os canoeiros. Após o café servido com algumas batatas, pão, carne assada, farofa, ovos e café, era chegada a hora de zarpar, pois o vento estava soprando desde de cedo vindo lá da “boca da praia”, como diziam os canoeiros, e já passava das 07:30 horas. Acompanhado com o vento vinha uma brisa fria, chovia fino e estava nublado. Não tardaria o vento chegar mais forte.

Lá, de dentro da tolda, uma voz forte falava alto, –Vamos simbora Daniel! O vento já chega! Era João Fernandes, mais conhecido como Janjão, que sai apressado já vestido em sua capa preta para não pegar chuva. Os grandes traquetes da canoa já se encontravam içados. A prancha fora recolhida pelo outro canoeiro, seu irmão que chamava-se Daniel Fernandes que em seguida tomou posse da cana de lema e gritou para Janjão –Empurre a canoa pra fora Janjão! Em menos de três minutos a canoa Argentina já estava com a prôa apontando para a cidade de Porto Real do Colégio/Alagoas onde o Imperador Dom Pedro aportou em expedição pelo Rio São Francisco, conforme escreveu o escritor Etevaldo Amorim em seu livro intitulado de ”Pão de Açúcar Terra do Sol, Espelho da Lua”. Nessa cidade morava o canoeiro Zé Piaba que também é dono de canoa de tolda. A prôa da Argentina já mirava o sertão onde lá viviam os familiares de Daniel e Janjão. O gosto de voltar para casa é melhor.

Daniel Fernandes e João Fernandes (Janjão) eram exímios canoeiros mestres das águas e também comerciantes. A canoa de tolda Argentina fora adquirida por muito custo pelos dois em sociedade. Eram irmãos muito unidos.

Bem construída, a canoa de tolda suportava grande carga e não se abalava com tempestades. Já na saída à previsão de Janjão Fernandes se concretizou. Um vento forte vindo da praia pegou a canoa que já passava da cidade de Porto Real do Colégio e subia o rio rumo à cidade de Piranhas.

Daniel Fernandes, de escolta nas mãos, gritou para Janjão – É vento que num se acaba mais Janjão! A primeira lufada do vento atingiu em cheio o traquete de popa e em seguida o grande pano de prôa que fez um enorme bolsão e a Argentina se inclinou para frente. Nessa hora a maroada estava alta, cerca de 1,20 e a canoa a rompia em grande velocidade e força. A Argentina era valente.

Indo pelo lado de Sergipe logo passaram pelo porto da cidade de Amparo do São Francisco, mais adiante o povoado Escurial e seguiram atravessando o rio para o lado de Alagoas mirando a cidade de Traipu, p passando pela Tabanga e alcançaram a cidade de Gararu. A chuva batendo forte e o vento veloz faziam com cuidado pelos dois canoeiros fosse dobrado.

A panela estava no fogo e dentro havia costelas de boi, toicinho, cebola, alho e muito tempero para dar gosto. Era a famosa feijoada de canoeiro. Janjão cozinhava enquanto Daniel pilotava em meio a ventania e chuva forte. A visibilidade era pouca e o frio fazia bater o queixo. Daniel que não era de beber pinga de quando em vez tomava uma xícara de café Aragipe e dentro da capa preta voltava a segurar a cana de leme em umas das mãos e na outra a escolta dos panos. Seu olhar mirava as vêgas e sempre procurava escutar o ranger das carningas e dos moitões para saber se estava tudo certo. Era a linguagem das canoas de toldas com os canoeiros. Só eles entendiam.

 Janjão levou à Daniel uma cuia com a comida e passou a pilotar a grande canoa Argentina. A refeição foi feita em pé no convés de popa, apressado olhando para todos os lados. Não usava talher ou colher. Suas mãos faziam pequenos bolinhos que eram levados à boca e em seguida um gole de café acompanhava para não se engasgar. De repente um grande raio fez lumiar-se seguido de um grande estrondo de trovão que bateu forte e ensurdecedor. Os panos da canoa estavam encharcados pela chuva

Lá já se iam quase cinco da tarde e a canoa passou por Ilha do Ouro, porto da cidade de Porto da Folha, a terra do Juiz de Direito que tornara-se cantor e chamou-se por batismo de Sérgio Meneses Lucas. Ai aportou para descarregar algumas sacas de arroz e entregar esteiras que lhes foram encomendadas pelos buraqueiros do lugar e, não se demorando mais que trinta minutos, partiram em viagem sob forte vento. Os canoeiros já previam que a noite não tardaria a chegar.

Navegado pouco mais de uma légua eles passaram do porto de Belo Monte, no do lado de Alagoas e logo alcançaram a cidade de Pão de Açúcar. Deixaram alguns sacos de arroz e seguiram. Nesse ponto a noite já se fazia presente. O vento começou por fim a ralear-se um pouco, porém, continuava quase igual da hora que saíram. As curvas dos morros faziam o efeito de perder o vento porque funcionavam como barreiras naturais impedindo-a de manter a velocidade, contudo, ainda bem veloz.

Uma pequena parada em Pão de Açúcar para descarregar arroz, tábuas, cachaça e tecidos. A canoa ficará então mais leve e logo zarparam rumo ao povoado de Bonsucesso, já no sertão em plenas terras de Poço Redondo, o lugar dos Marques e do Escritor Alcino Aves Costa. A chuva havia dado uma trégua e o vento havia sessado um pouco. Já era plena noite e Daniel Fernandes ocupava mais uma vez o comando da canoa de tolda guiando-se apenas pelos morros nas margens do rio. Era quase meia noite quando alcançaram o porto do povoado Cajueiro no município de Poço Redondo.

O vento havia parado por completo e assim ficaram ali mesmo. Deixaram os panos hasteados para secar melhor, comeram farofa d´agua com carne e café. Conversaram um pouco apreciando um cigarro de palha e prepararam a tolda para dormir em meio as mercadorias que levavam. Duas redes foram armadas dentro da tolda e o candeeiro foi apagado deixando um cheiro de fumaça no ar. No silêncio da noite apenas um cachorro ladrava distante e o som do vento que batia nos traquetes fazia um som rouco.

Dia seguinte, domingo de Deus, nova luta, Acordaram cedo e o porto aos poucos ficou cheio de gente que os conheciam e perguntavam como as coisas estavam lá para as bandas de Propriá. A notícia era de que a guerra na Alemanha estava matando muita gente – Segunda Guerra Mundial -, era então 1943. O povo perguntava se o reporte dizia se essa guerra vinha ao Brasil. Janjão e Daniel respondiam que não sabiam. O vento chegou, os panos já estavam içados, a vara empurrou a canoa e seguiram rumo a cidade de Piranhas, Alagoas, chegando lá por volta das dez horas do mesmo domingo.

Descansariam esse dia, a segunda-feira e terça com a família. Na quarta-feira dariam feira no local e na mesma quarta zarpariam rumo á cidade de Propriá carregados de mercadorias para a feira da Princesinha do Baixo São Francisco. Perfizeram assim mais de duzentos quilômetros de viagem por água em dezoito horas de viagem movidos apenas pelo vento. A vida do canoeiro era essa, sempre levando e trazendo mercadorias pelo caminho das águas. Era uma vida difícil e cheia de sofrimentos pelos canoeiros em um tempo no Baixo São Francisco que as canoas de tolda figuravam como transportes de cargas funcionando como os caminhões da época levando sua contribuição para o desenvolvimento das micros regiões desses dois Estados, Alagoas e Sergipe. A história das canoas de tolda e dos canoeiros merecem ser escritas e resgatas em memória da valorização da nossa cultura, história e povo.


O depoimento:

O depoimento foi colhido através da História Oral com por meu pai, Nildomar Fernandes, filho de Daniel Fernandes e sobrinho de Janjão Fernandes. Na ótica dele as canoas de tolda deram grande contribuição para o desenvolvimento social e econômico do Baixo São Francisco. Elas eram velozes para a sua época e sobre o modo de vida dos canoeiros.

Em memória:

À Daniel Fernandes, João Fernandes “Janjão” e Nildomar Fernandes e de todos os canoeiros e canoas de tolda do Baixo São Francisco por sua contribuição e luta por deixar um verdadeiro legado à posteridade.

É parte do livro ainda não editado de autoria de Adeval Marques – não corregido ainda – sobre a solidão do Baixo São Francisco.

 Por Adeval Marques
Graduado em História / Unit

Publicado no site Revista Sergipe News
Link: www.revistasergipenews.com.br/

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