Crônica da Propriaense Lúcia Nascimento Oliveira: VIAGENS NA MINHA TERRA…

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Vivendo na cidade de Rio de janeiro a Propriaense Lúcia Nascimento Oliveira é membra da Academia de Letras do Rio de Janeiro e tem apresentado trabalhos belíssimos. Na presente crônica: VIAGENS NA MINHA TERRA… ele faz um relato sobre o São João de Propriá no ano de 2016 por ocasião de sua vinda em sua terra Natal. – Adeval Marques

Confira a crônica na íntegra:

VIAGENS NA MINHA TERRA…

Plagiando o título de um dos romances de Almeida Garrett, o escritor famoso do romantismo em Portugal, venho lhes falar de viagem, nessa tarde em que nos encontramos aqui, como amigos e irmãos que somos, saindo um pouco da rotina de crônicas machadianas, saramagueanas  e fazendo a minha própria história, relembrando o mês de junho deste ano de 2016, quando voltei a Sergipe no intuito de rever as inesquecíveis festas juninas da minha infância. Era minha intenção visitar as academias de Literatura da capital e da cidade onde nasci. Havia até combinado com a nossa querida Ricardina Ione, presidente da ABDL no Rio de Janeiro, de que lavaria material nosso, para apresentar por lá. Mas não deu tempo para essa realização e, assim, deixei para uma próxima vez. Desejo muito criar laços entre a nossa ABDL e as Academias Sergipana e Propriaense de Letras.

Todo romancista, contista, cronista, enfim, quase todo escritor, sempre um dia fala de suas viagens. Assim, na minha condição ainda de aprendiz da Literatura, venho falar da minha, em rápidas palavras para não cansar os amados colegas.

Saí do Rio sob uma chuva forte e muito frio, em 9 de junho. Encapotada devidamente para a temperatura daqui, qual não foi minha surpresa quando, ao descer do avião, encontrar uma cidade plena de sol e com 30 graus de temperatura. O aeroporto era uma festa só. Lá estava a placa “SEJA BEM VINDO A ARACAJU, A PAIXÃO DE TODOS. E, em pleno saguão, uma  quadrilha junina vestida à caráter, composta por senhoras de quarta idade (já existe uma quarta idade, se vocês prestarem bem atenção…) dançavam alegremente ao som de uma sanfona;  a música junina, álacre e brejeira, enchia o ar de uma alegria saltitante, tanto é que entrei na roda e dancei também. A recepção para os turistas, durante os meses de junho e de julho, é sempre assim, ao som de música da época, pessoas felizes deixando a ventura sair pelos poros, contagiando a todos…

Depois, a chegada em casa da minha família, da minha irmã, da minha sobrinha, com aquele carinho com que sempre sou recebida. E o mês foi todo de música e passeios. No dia de Santo Antonio fui com a família na igreja desse santo amado por todas as crenças, e um frade jogava água benta nos nossos cabelos e roupas. Barraquinhas com canjica, pamonha, milho assado, tapioca, carne de sol, todos os quitutes costumeiros desse período. Aracaju estava lotada de turistas. Foram preparados locais na orla da praia para se comemorar o São João. Igrejinhas improvisadas, supostos “padres” esperando os presumidos “casais” para o casamento caipira, fogos de artifícios e muita música. Deu até para ir à praia, pois a chuva só chegou por lá, como sempre, na noite de São João.  E a festa já rolava desde o dia 1º. Na noite de 23 de junho todos comemoravam com fogueiras e cantorias, muito forró e muito fole, enquanto a chuva caía insistentemente, sem assustar a nenhum forrozeiro. As barracas da orla estavam repletas de fregueses, a pedir o milho assado e a pamonha, entre outros quitutes juninos.

Lucia-nascimento-oficial

Como sempre acontece, fui visitar os outros manos, os sobrinhos, a família inteira. Tudo muito belo e muito feliz, mas nada se comparou à noite mágica de São Pedro, no dia 28 (Lá se comemoram as noites que antecipam os dias dos santos, até o raiar da aurora. E a festa continua no dia exato de cada um deles).

A magia daquela noite deu-se pelo fato de minha ida ao interior, antiga casa da minha infância que o meu pai  nos deixou  e onde reside o meu mano caçula, o melhor anfitrião que alguém pode imaginar. Tenho dois irmãos bem jovens, filhos do terceiro casamento de meu pai (ele casou quatro vezes, minha mãe foi a segunda. Mas nunca se separou de ninguém, ficou viúvo, mesmo). O outro mano foi comigo para a nossa antiga casa com a incumbência que lhe fora dada pelo meu pai, nos últimos anos de sua vida: acender a fogueira na noite de São Pedro! E, ao fazê-lo, parecia-me ver o nosso pai ali, segurando a sua mão e acendendo a lenha também…

A rua era uma festa só. Os vizinhos todos em suas portas, com barracas armadas, fogueiras acesas, trocando quitutes uns com outros, conversando de casa em casa, como se toda a rua fosse uma só família… Carroças puxadas por cavalos passavam, enfeitadas de palhas de coqueiro, levando crianças para dançar quadrilha, com as pequeninas “noivinhas” e noivos mirins. Também passou pelas ruas uma boiada. E a lua, no céu, pálida e fria, pareceu aquecer-se com o calor das fogueiras. Muitos velhos amigos e amigos novos revi e conheci, respectivamente, naquela santa noite. E o vulto amigo de meu pai estava entre nós, a sorrir, dizendo: “Deus os abençoe, meus filhos!”

Por breves instantes, dava para esquecer o caos imenso em que vivemos,  aqui no Rio, no Brasil e no mundo…

Mas junho se foi, julho chegou e eu estava com trabalhos esperando-me para agosto. Tive que vir embora, mas o meu coração ficou dividido, naquela noite, entre a minha infância e a maturidade de agora, entre o meu amado Rio de Janeiro e a minha querida e inesquecível cidade natal…

As fotos, como é de praxe nos dias de hoje, estão todas no facebook e no celular.  Mas prometo, da próxima vez, fazer à moda antiga: levar uma máquina fotográfica e trazer as recordações dos momentos felizes que, tenho certeza, todos gostariam de ver. E vamos fazer nosso intercâmbio com as academias sergipanas.

Muito obrigada!

Lúcia Nascimento Oliveira
Academia de Literatura do Rio de Janeiro
Outubro de 2016

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