Trabalho de Adeval Marques é apresentado na Academia de Letras do Rio de Janeiro

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No dia 27 de junho de 2017, por ocasião de homenagem ao escritor E. G. de Campos, no Rio de janeiro, a escritora Lúcia Nascimento Oliveira, que faz parte da Academia Brasileira de Literatura do Rio de Janeiro, apresentou a crônica de Adeval Marques perante grande público que se fez presente ao local. A Crônica chama-se: “São João da minha infância, onde ti perdi?” foi aplaudida após a leitura deixando gente emocionada.

A obra é uma pequena crônica cujo escrito faz parte de uma série de outras crônicas sob diversas passagens na cidade de Propriá e reuniões de fatos ocorridos e registrados por ele em lembrança. Segundo Adeval Marques as crônicas e os livros estão sendo escritos de forma lenta e com pesquisas e serão publicadas posteriormente, ainda sem data.

Apesar de não conhecer a escritora Lúcia Nascimento a crônica referida, “São João da minha infância, onde te perdi?”, foi escrita para ela que, igual ao cronista, deixou Propriá ainda muito cedo em sua mocidade. Lúcia Nascimento Oliveira agradeceu o escrito e enviou a foto no ato da apresentação passando detalhes. Ela vive no Rio de Janeiro até os dias atuais sendo membra da instituição de intelectuais.

O trabalho de Adeval Marques chegou até Lúcia através do seu irmão caçula, Zelito Nascimento Santos, e se interessou pelo trabalho e escritos do autor levado ao conhecimento de Lúcia.

Em resposta Adeval Marques disse: “Aprendi que uma das coisas mais preciosas que temos é o tempo que passa rápido. Estou engatinhando nos escritos. Tenho muita coisa em memória sobre a História da minha cidade, meu povo e outras de um modo geral. Pretendo contextualizar aos poucos e publicar na medida do possível. É assim que foco meu tempo, trabalhando e escrevendo. Estou feliz por Lúcia ter gostado”.

Por Kênia de Gaúchi
Escritora/Jornalista e Produtora Artistíca

Crônica: São João da minha infância, onde ti perdi?

Voltar no tempo é reunir dois lados, passado e presente.

Foi por acaso que me deparei com uma pequena caixa antiga jogada em armário velho na casa de minha mãe que já se foi. Ela continha fotografias um pouco amareladas pelo tempo.

Para minha surpresa apareceram muitas fotos antigas que registrava momentos de uma infância da época de São João. Meus olhos se encheram de brilho, meu coração tomado de emoções e minhas mãos trêmulas começaram a manuseá-las.

Numa delas meu olhar parou e então um turbilhão de lembranças voltaram em minha mente trazendo sons, cheiros, cores, amigos, pessoas, momentos, amores, cumplicidades, olhares, alegrias e mamãe e papai. Eu me perguntei: São João da minha infância, onde te perdi?

De repente a foto em minhas mãos se abriu como um túnel em minha frente convidando-me para nele entrar.

Quando dei por mim já estava na rua onde morava e saí andando. Um espanto grande tomou conta do meu eu e meus olhos, arregalados, começaram a observar tudo ao meu redor. Eu a esmo pelas ruas vi casas enfeitadas com bandeirinhas trançadas em zig e zag de diversas cores. Fogueiras acesas e outras ainda apagadas clareavam aquela noite maravilhosa que eu não soube aproveitar. Eu era agora expectadora de mim mesma e me perguntei: São João da minha infância, onde te perdi?

Lá vou eu andando pela cidade em passos lentos e sempre olhando os detalhes. O som de uma bomba estourando ao longe, o grito de alguém expressando alegria em altas gargalhadas denunciava a bebida do vinho de jenipapo feito na Fábrica de Bebida Sertaneja. Alguém passando disse para o amigo que na Tavares de Lira “O forró de seu Budega tá pegando fogo!”. Numa casa simples da Rua do Quadro Clemilda cantava em uma vitrola; na outra residência o Trio Nordestino cantava: “Olha para o céu meu amor, veja como ele está lindo, olha aquele balão todo em cor que lá no céu vai sumindo…”. Mais além dali Luiz Gonzaga também não deixava por menos e cantava Rosinha de Propriá: “Ai ai, ui ui, Rosinha ficou lá em Propriá”.  Bombas estouravam e um “Viva São João!” se ouvia em couro de vozes. Alegria, alegria e alegria. Eu estava ali de volta no meu passado e meu mundo de infância e juventude. Mais uma vez eu me perguntei: São João da minha infância, onde te perdi?

Fui andando mais ainda pelas ruas, sem pressa de caminhar. Com alegria vi velhos amigos passando por mim num vai e vêm sem fim, todos em suas roupas de festa, amigas com saias rodadas e amigos com calças em quadros e um chapéu do lado. Na casa de alguém, um entra e sai de gente fazia crer que ali havia alguma comemoração, talvez um batizado ou casamento. Bem pertinho de onde eu estava um pequeno arraial se fez presente, casais dançavam, meninos pulavam e as beatas só olhavam. Era São João em Propriá, era o São João da minha infância. Passando por um beco, em um escurinho qualquer, namorados se abraçavam e declarações de amor se faziam em beijos apaixonados. A felicidade não tem preço! São João da minha infância, onde te perdi?

A noite já estava ficando velha. Ali perto um cachorro ladrava e eu ainda andando vi sentados em uma calçada um grupo de pessoas mais idosas que conversavam sob o calor de uma fogueira. A palestra boa e de alegria tinha por companhia uma chaleira com café, milho e carne assada, farinha, mugunzá e um pouco de canjica. Havia paz, havia alegria e fartura também. Olhei para alguns deles, amigos ou conhecidos que já se foram. Minha infância distante… São João da minha infância, onde te perdi?

Já pertinho de casa, porque fiz assim o trajeto, olhei de longe e vi quando alguém, que já foi meu amor, por longe de mim passou. Como era de beleza impar! Como eu queria falar… Deu vontade de ficar e num beijo lhe afirmar que o tempo não soterra a vontade de amar. E sem que eu percebesse se foi no meio da noite, mais eu tinha que também voltar. São João da minha infância, onde te perdi?

A emoção maior ficou para o final quando, já voltando do meu passeio, cheguei à frente da minha casa e vi mamãe e papai, como era de costume, sentados a conversar. Eu para eles fiquei olhando, aquele momento aproveitando, a saudade me tomou naqueles momentos porque, em seu semblantes tão lindos, cujo tempo não os levou, reside todo o meu amor. Quanta gratidão e doçura! Minha mente ainda guarda, dolente, eternas saudades daqueles tempos ausentes, mais que nunca me deixou. São João da minha infância, onde te perdi?

Então parei por fim no centro da minha rua e foi quando dei por mim que a fumaça das fogueiras faziam lágrimas escorrer dos meus olhos de criança-adulta. Chorei por tudo aquilo que vivi, por ter aproveitado e por não saber na época “rezar”. Chorei, chorei e chorei. São João da minha infância, onde te perdi?

Foi quando uma voz do meu mundo real me trouxe a tona. Era alguém que me chamava, convidando para voltar. Guardei a fotografia, só que hoje em dia, ela fica em outro lugar e nela escrevi: São João da minha infância, onde te perdi?

São João da minha infância, onde te perdi?

Hoje longe da minha terra
Simples, mas tão bela
Banhada pelo meu Opará
Eu me pego a perguntar:

Quem traça esse destino sem linho
E nos faz adultos tristinhos
Com vontade de no tempo voltar

Adultos ao invés de crianças
Vivemos de eternas lembranças
Sem a certeza de nos encontrar

Distante, nessa “selva de pedra” escura
A vida é insensatez
Que mata os sonhos de vez
Ao invés de os alimentar

Eu queria no tempo voltar
E só uma vez encontrar
As fotos do meu lugar

Então eu seria feliz
Naquele São João de matiz
Papai e mãe feliz
Comigo a lhes rodear

Me pergunto com lembrança
Num simples traço de giz:
São João da minha infância
Onde te perdi?

Dedicado a escritora Lúcia Nascimento de Oliveira
A amiga que não conheço. Onde estiver.

Adeval Marques
Graduado em História/Unit
Pesquisador da História do Baixo São Francisco
Membro do CCP: Centro de Cultura de Propriá

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